No Silêncio das Selvas....

Na negra solidão deste degredo infindo,
Neste recanto agreste onde a malária impera
Numa angústia ferina e atroz que desespera,
A vida pouco a pouco se vai, além, sumindo.

Em meio da mata brava a Razão prolifera,
Medra se concretiza e, alegre, vai florindo.
O vergel do futuro, esperançoso e lindo
C'os frutos da Verdade acena a quem espera.

Bondoso, e revoltado, o coração ferido
Prosseguirei na luta heróico e destemido
Bradando altivamente: - Abaixo a tirania!

Além já a divisa o Sol da Redenção
Que um passo marcará na humana Evolução,
É o sol da liberdade, a sublime Anarquia!

Domingos Braz
"(Campo de Concentração do Oiapoque-Clevelândia, 1925). Reproduzido em A Plebe, São Paulo, 12-2-1927" Edgar Rodriges

A Hora

Eis a Hora, a grande hora da peleja,
Hora de sacrifícios e entusiasmo!
Pulsa meu coração, meu peito arqueja
No momento da ação replito e pasmo.

É a batalha final! Trovo, troveja,
Além-mar, o canhão; foi-se o marasmo
Da plebe una, e a revolta bemfazeja
Move espada e morrão, ódio e sacasmo.

Levantam-se os escravos contra os amos!
Há um clamor de vitória em toda a Terra...
Somos nós, anarquistas, que clamamos!

Nós que vamos sorrindo e subvertendo,
Arrastando os irmãos à Maior Guerra,
Num rebate de loucos, estupendo!

José Oiticica
Sonetos 2ª série (1911-1918) de 1919

Desgarrão

O operário não tem onde morar
Coitado! E faz de um quarto infecto, imundo,
Aperitivo, nojento, nauseabundo,
O seu divino e sacrossanto lar.

E ali, uma hora a rir, outra a chorar
Ele arrasta a existência, neste mundo,
Como um cachorro, inútil vagabundo,
À procura de um lixo pra fuçar.

É a multidão, esse poder eterno,
É esse alimento que o burguês consome
Dando-lhe, em paga, um torturante inferno.

Sempre esta coisa cômica e sem nome:
O povo mata a fome ao governo
E o governo reduz o povo à fome.

Carlos Bacelar
11/03/1933

Ao escritor

Curto é o período de um dia
Curto é o espaço de uma vida
Rápida como páginas lidas...
Que podem ser longas
Quando é algo que significa
Pois possui prolongamento
Para além daquele tempo
Em que você as ficou lendo
É algo que contagia

Ficam em processamento
Lhe estimulam o pensamento
Despertam sentimentos
Que geram movimentos

Apenas papel e tinta
Podem ser algo mais
Dependendo do conteúdo

Apenas a breve vida
Pode ser algo mais
Dependendo do conteúdo

Aurélio
Dormia a nossa Goiânia 
tão distraída 
sem perceber que era subtraída 
em tenebrosas transações!

Luiz & Jane



Em 2012 muita atenção!
Para não cair novamente na enrolação
De partidos que só visam a eleição
Enchendo o bolso com milhão
Enquanto miséria há de montão
Será que novamente vão te fazer de bobão?
Preste atenção!
Quem faz a história, é vc mermão!

(autoria desconhecida)

Dia Mesquinho

Muito embora magro, feio e desprezado
Segue firme, incompreendido e mal amado
Como um Judas ao esquecimento renegado.

Mendigando comida, abrigo e carinho
Revirando lixos em becos escuros, sozinho
Sobrevive a mais um dia tão mesquinho.

Quando dorme (se é que dorme) ele tem medo
É despertado a pontapés, e ainda parece cedo
Para esse imensurável, infame e vil degredo.

Levanta-se debaixo de palavrão e de esporro,
Sob aqueles andrajos um homem pede socorro,
Um homem, eu disse um homem e não cachorro!


Ricardo F. de Souza

Do tédio moderno

Pego-me constrito, macilento, arruinado,
Sentado no sofá, em frente à TV.

Tento sair. Mas para onde?
Meu trabalho é uma droga. Não quero nele estar.

Devo ir à igreja então?
De tanto que já rezei, hoje sou ateu.

Vou procurar um pouco de lazer...
São todos tão programados, que me dão sono.

Dizem que consumir no shopping center é revigorante...
Os produtos são de mim muito vazios.

Tento um futebol aos finais de semana com os amigos,
Uma cerveja no bar preferido.

Isto até que é bom...
O problema é tê-los em horários determinados por outros.

Hora de acordar, hora de dormir,
Hora de trabalhar, hora de divertir,
Hora de lazer, hora de rezar,
Hora de estudar, hora de amar.

Tudo é parte do jogo sem graça da maquina social.
Funciono dentro dela. Não a coloco sob meu jugo.
Obedeço-a. Não a controlo.
Estou nela, mas não a vivo.

A vida moderna
Só consegue produzir o tédio moderno,
A loucura moderna, a insensatez moderna.
Enfim, a vida de cada dia é a morte de todos os dias.


Lucas Maia

A União

Acordo todos os dias,
Na miséria
Busco uma alternativa de vida,
Mas sou barrado,
Pela fome e pela ira,
As pessoas se afastam,
Ficam com medo,
Me acham perigoso,
Nessa sociedade sou o significado de horroroso.

Vai trabalhar vagabundo,
São palavras pronunciadas constantemente aos meus ouvidos,
Não me dão emprego,
De pedinte a pedinte sobrevivo.

No meu redor,
Observo a riqueza,
Tento adquiri-las,
Mas constantemente sou acordado por um policial,
Me obrigando a deixar de sonhar,
Volto a pedir no sinal,
Volto a realidade.

Ei  me de um trocado,
Para eu comprar cola e me manter acordado.

Mas um sinal se abre,
Na minha mão
A difícil missão,
Matar a fome
Comprar um pão,
Ou enganar a realidade
Com um pouco de alucinação.
Dias em dias,
Passo sempre nessa indecisão.

Vejo fábricas funcionar,
Senhores de ternos em seus carros a chegar,
Pessoas uniformizadas a entrar.
Percebo há vários anos,
 Que os senhores de ternos,
São filhos e netos de outros senhores
Que também usavam ternos.
As pessoas uniformizadas são filhos dos mesmos uniformizados,
Que trabalhavam ali.
Percebo que se mantém a mesma lógica,
Desde quando estou na rua.
Os mesmos discursos de políticos
Que pronunciava a melhoria do povo
Se mantém agora com artifícios
Mais modernos.
Tento ler o jornal que usei para dormir,
Nenhuma novidade,
Somente a crua realidade,
Trabalhadores entram em greve,
Diz a reportagem,
Mais uma luta contra o explorador.
Certa vez ouvi de um trabalhador,
Nossa luta é gigantesca,
Estejamos preparados,
Ao me relembrar dessa frase,
Preparo-me para difícil missão,
Destruir o patrão.


Adriano José

Eleições


Festival republicano
Um tal “povo soberano"
E cores de autonomia
Escolher quem lhe dará o cano
Louvores à democracia !

Deusa da mitologia governista
De antigos gregos e romanos
Não se sabe se petistas ou tucanos
Mas clamaram “Terra à vista”            

Terra de muito gado
E errado é quem avisa
Que nem só de câmara e senado
Viverá quem nos inferniza

Eleição aberta minha gente !
Escolha seu candidato
Então virá mais um mandato
E a mesma merda de sempre

Uns mandam outros obedecem
Uns mamam outros padecem
Empanturrar de ilusões!
Vacas e bois humanos

“ Exercer a cidadania"
Um exercício que se limita
Em apertar botões...

A cada dois anos


Aurélio
de agosto 2012